JOELHO DE PORCO
Neste novo romance breve, menos de 81 páginas, Dirce ressurge com uma linguagem potente e um tema inusitado. Um clássico. Luiza Antoniani
JOELHO DE PORCO
Berta Speck nasceu no interior de Santa Catarina nos idos de 1980. Tinha tudo para dar errado: não era bonita nem feia, não era gorda nem magra, não era alta nem baixa, não era talentosa nem desprovida de talento. Quando mocinha, se mudou para a capital para estudar jornalismo e, ainda aluna de graduação, foi para o Uruguai fazer uma entrevista com o grande Horácio Quiroga. Ocorre que, sem saber ao certo como era a fisionomia dele, acabou entrevistando um pastor de ovelhas que vendia orações em potinhos de doce de leite justamente na frente da casa do escritor uruguaio. Conversaram longamento e, entre um e outro ensinamento bíblico, ele lhe mostrava como tirar leite de cabra. Nossa heroína entendia tudo o que ele falava como metáfora da escrita e da vida literária. No ônibus, retornando para o Brasil, foi colocando no papel a sua entrevista. Mas eis que, na primeira parada, num restaurante de beira de estrada, ao lado de pacotes salgadinhos, os jornais estampavam uma foto enorme e uma manchete que dizia : "Partiu Horácio Quiroga". Foi só aí que nossa futura jornalista se deu conta da gafe que havia cometido. Quiroga havia se suicidado no mesmo dia em que ela o entrevistara, ou melhor, entrevistara o pastor. O que faria agora? O que diria ao professor que a havia enviado para essa missão? Nada! Usaria as respostas do pastor e as colocaria na boca de Quiroga. Ninguém iria perceber. E , de fato, a entrevista foi publicada e ninguém notou nada. Speck ganhou notoriedade no meio cultural, pois passou a ser conhecida como a última pessoa a ter conversado com o mestre uruguaio. Mas isso não era tudo, ela dizia conhecer certos detalhes da vida do escritor, coisas inéditas. Talvez os leitores pensassem que , antes da morte, ele tivesse decidido se abrir verdadeiramente. Speck passou a ser chamada para dar entrevistas e contava a sua aventura e algums segredos de Quriroga como quando...


