Um causo
Vou contar um causo:
Estudei no Colégio Catarinense, em Florianópolis, onde estudam agora os garotos que torturaram e mataram o cãozinho Orelha. Parece que, diferentemente de parte dos meus antigos colegas, os quais costumam se referir aos anos em que estiveram por lá como os melhores de suas vidas, eu não guardo boa lembrança daquele período. Lembro de colegas que faziam bullying com outros que não tinham o tênis da moda, a bolsa de marca ou o sobrenome “famoso”. Na minha época, era comum colocarem rojão no banheiro do colégio, geralmente no masculino. Saíam de lá zonzos os garotos que não pertenciam à elite, garotos cujos pais pagavam o colégio com dificuldade. Sabíamos quem era quem e quem poderia ser maltratado. Tudo sempre acabava em “coisa de criança”. Mas os garotos menos favorecidos saiam dessas “brincadeirinhas inocentes” traumatizados. Garotas que não pertenciam à elite ou que não se comportavam como se da elite fosse também sofriam bullying. No ano passado, criaram um grupo para reunir os alunos que se formaram no “científico” em 1986. O intuito era convidar todos para uma festa de 40 anos de formatura. Local da festa? A cantina do Colégio Catarinense. Nesta semana, resolvi olhar o grupo (que estava silenciado e no arquivo do meu celular). NENHUMA palavra sobre o caso do cãozinho brutalmente espancado. NADA, não falaram nada e parece que não permitem comentários a respeito. Saí do grupo. Nem deveria ter entrado, para dizer a verdade. O Colégio não se pronunciou até agora sobre o caso, mas a festa está garantida e será em março. Agora pequenos encontros são marcados em sorveterias tradicionais, barzinhos em Jurerê etc.



Pelo que percebo ao longo da minha vida, dos estudos e das notícias é que a violência não nasce do nada: ela é cultivada no silêncio, na conivência... parar isso é um grande desafio, mas urgente. Tento fazer isso diariamente seja revendo meus princípios e modo de ver o mundo, seja na educação dos meus filhos.
Que loucura! Quando vejo o silêncio das pessoas diante de atrocidades, só me lembro do silêncio maligno de Iago na peça